Ler tarot para si mesmo: o problema não é técnico, e sim que você lê o que já quer ler

· 8 min de leitura · por Rafael · Tarot

Pode, e vale a pena aprender: é assim que a imagem antiga vira vocabulário para nomear o que está acontecendo em você. O ponto de atenção é o desenho da situação, porque quem formula a pergunta, embaralha, interpreta e decide se gostou da resposta é a mesma pessoa. Sem alguém de fora escutando, a leitura tende a confirmar o que você já tinha decidido antes de tocar no baralho.

Ler tarot para si mesmo: o problema não é técnico, e sim que você lê o que já quer ler

Pode. Tirar carta para mim mesmo é uma prática que eu mantenho, e ler para você mesmo é uma das coisas mais úteis que o tarot oferece: é assim que a imagem antiga vira vocabulário, e você ganha uma cena concreta para dar nome ao que está acontecendo aí dentro.

O que costuma ficar de fora quando se aprende a fazer tiragem sozinho é o desenho da situação: quem formula a pergunta, embaralha, interpreta e decide se gostou da resposta é a mesma pessoa. Você. Sem alguém de fora escutando, a leitura tende a confirmar o que já estava decidido antes de o baralho ser aberto. Não é falta de técnica: é que falta um terceiro na sala.

Decorar significado é a parte fácil

É comum alguém chegar depois de meses lendo para si e dizer, meio sem graça: eu já sei o que cada carta quer dizer, mas na minha mão elas dizem o que eu quero ouvir. Enquanto fala, cai o Sete de Copas, sete taças flutuando diante de uma figura que ainda não estendeu a mão para uma delas. A imagem já está falando de escolha adiada, e ainda assim dá para ler ali uma abundância bonita, se for isso que a pessoa precisa naquele dia.

Aprender o repertório das imagens leva alguns meses de prática e rende muito. A parte difícil vem depois: sustentar uma resposta que você não pediu. É nesse ponto que a leitura solitária costuma ceder, e a tiragem escolhida tem pouco a ver com isso.

A mão embaralha até cair o que confirma

O embaralhamento que não termina

Você embaralha, sente que ainda não está bom, embaralha mais um pouco, e para no instante em que a mão dá aquele estalo. Lendo para outra pessoa, o estalo é ótimo, porque ali você não tem nada a ganhar com o resultado. Lendo para si, ele costuma coincidir com o momento em que a carta desejada está prestes a cair.

A tiragem que se refaz

Refazer a tiragem quando o resultado desagrada é comum, e tecnicamente nada impede. Acontece que a repetição raramente nasce de dúvida: nasce de decepção. Você muda duas palavras da pergunta, embaralha de novo, e a terceira tentativa costuma entregar o que você queria ouvir, porque a essa altura você já sabe onde procurar. É comum alguém contar isso rindo, ao ver o Dez de Espadas de novo na mesa: tirei três vezes até vir uma carta que eu aguentasse.

A carta lida pela metade

Na mesa de outra pessoa, a Torre é uma torre partida por um raio, com duas figuras caindo, e eu descrevo isso com cuidado e sem enfeite. Quando a mesma carta cai na minha frente, vem junto uma vontade muito sincera de lembrar que ela também fala de alívio, de estrutura que precisava ceder. As duas leituras cabem: sozinho, você escolhe a que dói menos, e escolhe rápido, antes de reparar que escolheu. Sobre o que resta depois desse desabamento, escrevi A Estrela, o que resta depois da Torre.

Sozinho, o baralho vira espelho, e o espelho responde no mesmo tom em que você pergunta.

Em análise existe um terceiro por um motivo

A escuta psicanalítica coloca na sala alguém que sabe menos da sua vida do que você, e é daí que vem o valor: essa pessoa ouve o que escapa, repara quando a voz muda no meio da frase e devolve uma pergunta onde você esperava consolo. Ocupar esse lugar sozinho é trabalhoso, porque você já sabe de antemão para onde não quer olhar, e desvia antes de chegar perto.

Numa leitura o gesto é parecido, com outro vocabulário. É comum alguém olhar o Enforcado, um homem pendurado pelo pé, de cabeça para baixo, com o rosto sereno, e dizer num tom de desculpa: acho que essa aí sou eu parada. Quem está de fora consegue segurar a imagem por mais tempo do que você seguraria, e perguntar: e se o que mudou de posição for o ponto de vista, e não a sua vida? A relação entre essas duas escutas eu desenvolvo em tarot e psicanálise.

Esse é o argumento mais forte a favor de pedir para outra pessoa ler, e ele anda desocupado: interpretação sem contraditório tende a virar autoconfirmação, e isso vale para o tarot do mesmo jeito que vale para a leitura que a gente faz da própria vida. É também por isso que o tarot não prevê, ele pergunta.

O que reduz o viés quando você lê sozinho

Reduzir é diferente de resolver, e reduzir já muda o que você consegue sustentar depois. São quatro gestos simples, todos de logística, feitos antes de a primeira carta virar.

Escreva a pergunta antes de embaralhar

À mão, no papel, com sujeito e verbo. Se a pergunta mudar depois que as cartas caírem, você acabou de receber a informação mais útil da tiragem. Sobre montar essa frase, escrevi um guia inteiro em como formular a pergunta para o tarot.

Combine antes quantas vezes vai embaralhar

Sete, dez, o número que você preferir, decidido enquanto o baralho ainda está fechado. Assim a mão para porque combinou, e não porque sentiu.

Anote as cartas antes de interpretar

Escrever as cartas na ordem em que caíram, antes de pensar no sentido, tira de você a chance de reorganizar a cena no meio do caminho. É comum alguém abrir esse caderno semanas depois, ver o Dois de Espadas anotado três vezes na mesma semana, uma mulher vendada segurando duas lâminas cruzadas no peito, e dizer rindo: pelo visto eu continuei de olhos tapados.

Uma tiragem por assunto no dia

Se voltar ao mesmo tema, que seja em outro dia, com a tiragem anterior anotada na sua frente. Para a prática diária, uma leitura curta rende mais que uma grande: é o desenho do Desjejum, R$37, uma carta para o dia, pequena demais para dar espaço a negociação.

Quando rende mais pedir para outra pessoa ler

O teste tem pouco a ver com a dificuldade da tiragem: é sobre o quanto você já decidiu. Quando as cartas voltam ao mesmo nome três vezes na mesma semana, aquilo deixou de ser pergunta e virou insistência, e insistência raramente se resolve com mais carta na sua própria mão.

É comum a Lua aparecer por aqui: duas torres, um caminho que some no fundo, um cão latindo para o céu. A pessoa olha e diz, mais baixo do que estava falando até então: eu já sabia que era isso. Escutar essa frase saindo da própria boca, com outra pessoa presente, costuma mudar o que vem depois dela.

Pedir para alguém ler rende também quando a decisão tem custo real: sair do emprego, encerrar uma relação, mudar de cidade, contar uma coisa adiada há meses. Aqui no site, a leitura escrita de duas perguntas custa R$77 e volta por escrito, o que tem uma vantagem específica para quem está estudando: dá para comparar com a leitura que você fez sozinho e enxergar onde desviou. Se você prefere conversa no mesmo instante, o atendimento ao vivo pelo WhatsApp de 30 minutos é R$157. E se for a sua primeira vez do outro lado da mesa, ajuda ler como se preparar para sua primeira consulta.

Continue lendo para você, sério: é assim que o vocabulário das imagens entra e que você começa a reparar o quanto a sua mão participa do resultado. A leitura que você faz para si costuma acompanhar, e a que outra pessoa faz de você costuma interromper. O que, em você, anda pedindo para ser interrompido agora?


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Fazer duas perguntas

Perguntas frequentes

Dá para ler tarot para mim mesmo?

Dá, e vale aprender. Só tenha claro que você acumula os papéis de quem pergunta, embaralha, interpreta e julga se gostou da resposta, e isso puxa a leitura para o lado que você já tinha escolhido.

Por que dizem que não se lê para si mesmo?

Menos por proibição e mais por constatação prática: sem alguém de fora escutando, a leitura tende a confirmar a sua expectativa em vez de contrariá-la. Aprender a ler para si continua valendo muito a pena.

Posso refazer a tiragem se não gostei do resultado?

Tecnicamente dá, e vale reparar no motivo: refazer por decepção costuma aproximar você da resposta que já queria desde o começo. Se refizer, anote as duas e compare depois com calma.

Como diminuir o viés quando eu leio sozinho?

Escreva a pergunta à mão antes de embaralhar, combine antes quantas vezes vai embaralhar, anote as cartas na ordem em que caíram antes de interpretar e faça uma tiragem por assunto no dia.

Quando vale mais pedir para alguém ler?

Quando você já voltou ao mesmo assunto várias vezes na mesma semana, ou quando a decisão tem custo real na sua vida. A leitura escrita de duas perguntas custa R$77 e o atendimento ao vivo pelo WhatsApp de 30 minutos custa R$157.

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