Tarot e psicanálise: o que a carta faz que a escuta também faz
O tarot não interpreta você: ele faz você falar. A carta é uma imagem antiga e ambígua diante de alguém que está falando, e isso produz associação livre, que é a matéria prima da psicanálise. Na minha mesa a carta funciona como significante, uma palavra que ganha sentido pelo lugar que ocupa na sua história, e não como imagem que já vem com o sentido pronto dentro. Por isso eu falo pouco, descrevo a imagem e devolvo a pergunta. Tarot não é psicoterapia e não substitui acompanhamento: quando o assunto pede terapia ou médico, eu digo com todas as letras.
O tarot não interpreta você: ele faz você falar. A carta é uma imagem antiga e ambígua posta na frente de alguém que está falando, e o que essa pessoa faz com a imagem é o material da leitura.
Olhar uma figura vaga e ir dizendo o que se vê produz associação livre, que é falar sem organizar antes. No meu trabalho eu presto atenção tanto às cartas quanto ao modo como cada pessoa as lê, e é desse modo de ler que costuma sair a expansão de olhar sobre a situação que trouxe você até aqui.
A carta é vaga, e a vagueza é a ferramenta
Uma imagem indefinida pede que quem olha preencha o resto com material próprio. É comum alguém olhar a Lua, com os dois cães uivando para o céu e o caminho sumindo entre as torres, e dizer rindo: essa aqui é a minha sogra. Em uma frase o assunto já apareceu, antes de eu ter perguntado alguma coisa.
Esse mecanismo tem nome fora do tarot. O Teste de Apercepção Temática, criado por Christiana Morgan e Henry Murray na clínica psicológica de Harvard e publicado em 1935, mostra cenas ambíguas e pede que a pessoa conte uma história sobre elas: o que interessa ali é a história, não o desenho. As 78 figuras do baralho funcionam como um convite parecido. A Torre não diz de quem é o prédio que desaba, e é você que diz.
A carta não sabe nada sobre você: ela é vaga o bastante para que você diga alguma coisa.
Projeção, associação livre e enquadre
São três palavras da psicanálise que descrevem bem o que acontece numa mesa de tarot. Em palavra simples: o que você coloca na imagem, o que você diz sem organizar antes e o combinado que sustenta a conversa.
O que você coloca na imagem
Projeção é isso: a imagem recebe o que é seu. Acontece de alguém ver o Diabo, com as duas figuras presas por correntes largas o bastante para sair, e dizer baixinho: esse aqui é o meu trabalho. Eu prefiro não corrigir essa leitura com o sentido de manual. Costumo perguntar o que, no seu trabalho, tem corrente frouxa, e a conversa segue por aí.
O que você diz sem organizar antes
Muita gente chega com um roteiro ensaiado do que vai contar. Aí cai uma carta fora do esperado, o roteiro trava e a pessoa diz: não sei por que eu falei isso. Esse instante costuma render mais do que a resposta que já vinha pronta, e é ele que eu escuto com atenção.
O combinado que sustenta a conversa
Enquadre é o contrato da conversa: quanto dura, quanto custa, quando começa e quando termina. Acontece de a pessoa perguntar, antes de marcar: meia hora dá conta? Costuma dar quando o assunto já vem escolhido de casa. São 30 ou 60 minutos ao vivo pelo WhatsApp, videochamada, ou leitura escrita de 1, 2 ou 3 perguntas, que chega em áudio e foto das cartas em até 24 horas, sem marcar horário. Os formatos e os horários abertos estão em agendar.
A pergunta que você traz é a bússola
O tamanho da tiragem importa menos do que a frase que abre a mesa. É comum alguém dizer, no primeiro minuto: eu não sei nem formular direito. Isso serve de material também, porque uma pergunta ainda embolada costuma mostrar onde a coisa está confusa por dentro.
Quando a pergunta vem em três versões da mesma dúvida, uma já resolve, e sobra espaço para outra coisa que você quiser olhar. Quando ela vem afiada, do tipo o que me segura nessa relação, a tiragem inteira ganha um eixo e as cartas passam a responder umas às outras.
A carta como palavra, não como destino
Há duas maneiras de olhar para a mesma figura. Uma trata a carta como arquétipo: uma imagem de sentido compartilhado, que já viria com o significado dentro. A outra, que é a que eu uso, trata a carta como significante: uma palavra que não carrega sentido sozinha e ganha sentido pelo lugar que ocupa na frase de quem fala.
Por isso o Enforcado, pendurado de cabeça para baixo com o rosto calmo, aparece como sacrifício para uma pessoa e como alívio para outra. É comum alguém olhar para ele e dizer, meio surpreso: ah, esse sou eu esperando. A figura é a mesma nas duas mesas. O que muda é a história em que ela caiu.
A diferença aparece no fim da frase. Fechar o sentido na carta entrega uma resposta redonda e encerra o assunto ali. Deixar o sentido aberto devolve a pergunta e espera você responder, e é aí que costuma aparecer a informação que muda alguma coisa na sua semana. Escrevi sobre esse giro em o tarot não prevê, ele pergunta.
Tem uma consequência prática nisso: sentido pronto puxa para o lado do destino, e sentido aberto puxa de volta para quem está falando, que é o único lugar onde dá para mexer em alguma coisa.
Onde a leitura para
Acontece de alguém olhar o Nove de Espadas, a figura sentada na cama com o rosto nas mãos, e dizer: faz três meses que eu não durmo. Quando isso aparece, eu digo com todas as letras que a mesa não dá conta sozinha, e que a conversa que ajuda ali tem outro nome. Falei disso com mais calma em tarot substitui terapia e em tarot e ansiedade.
O que eu faço nesse ponto é encaminhar e seguir escutando o que está na sala. Diagnóstico, nome de doença e opinião sobre remédio ficam fora da mesa, e tratamento em curso é assunto de quem cuida dele com você. Sobre o sentimento de outra pessoa, costumo devolver a atenção para o que você está vivendo com aquilo, porque é o lado da história que está aqui.
O que muda na consulta, na prática
Eu falo pouco. Abro a carta, descrevo a imagem, digo o sentido tradicional dela e devolvo: e isso aí te lembra o quê? O trabalho segue com o que você traz, e não com o que está no livro. Esse jeito de conduzir tem sido chamado de tarot terapêutico, e eu escrevi sobre o que cabe nesse nome em tarot terapêutico. Três coisas costumam puxar minha atenção na mesa.
Palavra que se repete
Quando a palavra segurança aparece quatro vezes em meia hora, o assunto já se mostrou, mesmo que a pergunta trazida fosse sobre outra coisa. É comum a pessoa dizer, quando eu reparo em voz alta: eu falei isso quatro vezes mesmo?
Carta que a pessoa pula
Cai uma carta e o assunto muda sozinho. Alguém olha a Morte, com o campo e a foice, e emenda rápido: e a outra ali, o que quer dizer? Eu anoto e volto lá depois, com calma. O desvio costuma marcar o ponto quente da tiragem.
Pergunta que muda de forma
A pergunta que abre a consulta com frequência não é a que fecha. Quando alguém chega perguntando se ele volta e, vinte minutos depois, pergunta por que aceita esperar tanto, a segunda costuma ser a que importava. Muita coisa chega em forma de previsão: ele volta, eu consigo a vaga, quando acontece. Eu não sei o futuro, então prefiro perguntar o que essa resposta resolveria hoje. Tem gente que está pedindo permissão, e não data.
Quem escreve isto
Rafael, tarólogo há treze anos e especialista em psicanálise, com formação em teoria e em prática de escuta. Nas leituras eu atendo como tarólogo, e a especialização aparece no modo de escutar. Atendo por videochamada, por WhatsApp ao vivo e por escrito, e respondo pessoalmente cada pedido.
Parar, olhar a imagem e dizer em voz alta o que ela te lembra: é isso que a mesa oferece. O que, em você, pede para ser dito agora?
Perguntas frequentes
Tarot tem alguma base psicológica?
O baralho não é instrumento validado e não mede nada. O que tem descrição fora do tarot é o mecanismo: imagem ambígua diante de alguém que fala produz associação e projeção, que é o princípio dos testes projetivos, como o Teste de Apercepção Temática, de Christiana Morgan e Henry Murray, publicado em 1935. A consulta vale pela conversa, e não por um poder da carta.
Qual a diferença entre leitura junguiana e escuta psicanalítica?
Na leitura junguiana o sentido está na carta, como arquétipo, e quem lê traduz esse sentido para a pessoa. Na escuta psicanalítica o sentido está no que a pessoa faz com a carta, então eu devolvo pergunta em vez de entregar interpretação pronta. As duas olham para a mesma figura e param em lugares diferentes.
Você é psicanalista ou tarólogo?
Atendo como tarólogo, há treze anos, com especialização em psicanálise. A formação muda o jeito de escutar, e não transforma a consulta em atendimento clínico.
Isso é uma sessão de análise?
Não. Análise pede frequência, contrato longo e um analista responsável pelo processo. A consulta de tarot é um encontro pontual, que começa e termina no mesmo dia.
Como isso muda a consulta na prática?
Eu falo menos e pergunto mais, não fecho o sentido da carta por você e presto atenção nas palavras que se repetem e nas que mudam durante a conversa. Quem chega esperando previsão fechada costuma achar pouco. Quem quer olhar a própria situação costuma achar suficiente.